Breve
relato da viagem fantástica ao Atacama
Ricardo e sua TDM
A viagem foi realizada sozinho, com uma YAMAHA TDM
850, apesar de ter
procurado um companheiro, mas os sonhos têm que ser
realizados, não é mesmo?
Teve duração de 13
dias, em um total de 7.700 Km.
A saída de
Florianópolis foi no feriado de 01.05.2003, com
primeiro destino
em São Borja RS, trajeto este realizado em 925 Km
abaixo de muita chuva e
enfrentando as más condições da estrada gaúcha.
Depois de cruzar a Argentina, estou entrando na área
do deserto. Meu destino é a cidade de San Pedro de
Atacama, então ainda tenho 487 Km pela frente, do
mais puro deserto. Vamos em frente!
De São Borja entrei
na Argentina por São Tomé e segui para Corrientes,
onde pernoitei. Meu destino final na Argentina era a
cidade de Salta, bem ao norte, por onde entraria no
Atacama via Paso de Sico.
Através de
informações colhidas em Salta, não me aconselharam
seguir por Sico devido a péssimas condições da
estrada. Então acionei o plano B, que era o ingresso
no Chile pelo Paso de Jama, pouco mais ao norte,
passando pela cidade argentina de San Salvador de
Jujuy. Para este percurso é prudente levar reserva
de gasolina, pois é um longo trecho sem
abastecimento, além do maior consumo da motocicleta,
em função da estrada e da altitude.
Subindo as montanhas no deserto, encontramos
formações de areia e pedra esculpidas pelo
vento, que formam um belo visual como este. O
silêncio no deserto é algo impressionante. O
barulho da bota arrastando na areia ou mesmo o
clic da máquina fotográfica parecem heavy-metal
para os ouvidos.
O Paso de Jama é
tranquilo, apesar dos 240 Km de rípio, mas com
paciência e tempo disponível tudo fica bem. A
paisagem da entrada do deserto é única,
indescritível. Completamente empoeirado, mas com a
alma lavada, cheguei a singular cidade de San Pedro
de Atacama, no Chile.
Llama solitária.
A cidade é um
capítulo a parte, pois surpreende em todos os
aspectos, pois em
nada se parece com uma "cidade". Senti-me do velho
oeste. Apesar do visual
primitivo, a cidade dispôem de excelente
infra-estrutura de turismo e te
recebe muito bem, com várias pousadas, restaurantes,
bares. É ponto de
encontro de aventureiros do mundo todo, fala-se
inglês a toda hora. Em San
Pedro há várias opções de turismo aventura, dentre
os quais destaco os
Geisers del Tatio e o Vale de la Luna.Gastei dois
dias em San Pedro, pois queria sentir bem aquele
clima
desértico.
De San Pedro de
Atacama comecei a rumar em direção ao sul, pela
Rodovia
Panamericana, cortando todo o norte do Chile até
Santiago, com retas onde é
possível desenvolver alta velocidade, sem problema.
O percurso passou pelas
cidades de Antofagasta, já no litoral do Pacífico,
Copiapó e La Serena. A
parada em Santiago foi estratégica, já que a moto
precisava de alguns
cuidados, troca de óleo e uma rápida revisão.
De Santiago segui de
volta a Argentina, cortando novamente a Cordilheira
dos
Andes, em direção a Mendoza. Esse percurso pelos
Andes também é maravilhoso.
Um pouco antes de Mendoza está a cidade de
Uspallata, que nos recebe com essa combinação de
árvores coloridas e um pouco de sombra, que a
essas horas já estava fazendo falta
A cada curva
você recebe uma paisagem estonteante. Várias paradas
para fotos
foram necessárias, pois não podia deixar de registrar tudo. Neste trajeto
o
que mais chama atenção é o Aconcágua, o pico mais alto das Américas, com
6.962 metros de altitude.
A cidade de
Mendoza é muito bonita também e vale uma estadia
mais longa. Ela é coberta de árvores que são
irrigadas com água do degêlo dos Andes, que
correm em canais nas calçadas. Muitos restaurantes, opções variadas de
"parrillada", bons vinhos...
Partindo de
Mendoza em direção leste, corta-se a Argentina pela
Ruta 07, com
desvio em Mercedes para chegar a Santa-Fé, outra importante cidade
Argentina. Santa-Fé não estava em seus melhores dias, pois estava sofrendo
muito com grande enchente do Rio Paraná. Toda a região estava sob as
águas.
Ginásios de esportes acomodavam os desabrigados.
Após a pernoite
em Santa-Fé segui em direção Uruguaiana, onde
percebi que o meu pneu traseiro havia chegado
na lona. Como não tinha onde trocar resolvi seguir
em frente, direção Porto Alegre. Este
trajeto de Uruguaiana até Porto Alegre também está
em má conservação, o que atrasou minha viagem, então
resolvi pernoitar em Pântano Grande,
cerca de 120 Km da capital.
Dia seguinte
rumei a Porto Alegre, mas o pneu não segurou a barra
e estourou 60 Km antes do meu destino. Descobri o
telefone do Paulinho, conhecido na região como
rebocador de motos, que me salvou da roubada e me
levou até a oficina Yamaha de Porto Alegre onde
recebi pronto atendimento (obrigado Fábio) e logo
após o almoço estava retornando para a minha
Florianópolis.
O Deserto do Atacama
sempre me chamou a atenção e eu tinha que
atravessá-lo. Devo dizer que a aventura superou em
muito minhas expectativas. É uma geografia, um
clima, uma paisagem completamente diferente da que
temos aqui no Brasil, especialmente no litoral.
Ano passado havia ido
ao Chile também, com uma Honda Shadow, acompanhado
de minha namorada, mas fomos para a região
dos Lagos, ao sul. Não saberia dizer qual das
regiões é a mais bela, cada
uma tem seu charme individual. É claro que no
deserto você às vezes pilota
por horas completamente sozinho na estrada. Imensas
retas numa região
inóspita e às vezes tenebrosa.
Mas é emocionante,
por exemplo, chegar à Mão do Deserto e registrar com
uma bela foto a sua presença por ali, ponto que é
conhecido por todos os aventureiros que por ali
passam.
Desafiante, também, é
cruzar a Cordilheira dos Andes pelo deserto. Ás
vezes
você se sente como um perfeito participante do
Paris-Dakar (nesta hora
lembrei-me das palavras do livro do Chardô).
Enfim, foi mais um sonho realizado. O próximo já
está sendo planejado, para
concretização em janeiro 2004: Ushuaia.
RICARDO RAUEN
Florianópolis SC -
ricardorauen@hotmail.com
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